O blog do Leandro Alves

As pessoas são todas umas bisbilhoteiras.  Falam dos vizinhos, falam dos amigos pelas costas, espiam a vida dos outros.  O jornaleiro, o dono da padaria, o cobrador do ônibus, o marido da vizinha, o professor do colégio — ninguém escapa deste prazer humano de falar da vida dos outros.  Pode ser falar bem, mas também falar mal. Algumas pessoas são como eu, transformam tudo em crônicas.

Leandro Alves

Amizade é troca

 

 

 

Amizade é troca

Leandro Alves

Amizade não é de graça, implica uma troca entre você e uma pessoa.

Pode ser que você se una à uma pessoa por gostar de andar de bicicleta junto com ela, correr uma maratona, fazer uma viagem com ela, compartilhar impressões sobre livros e obras de arte, sair para dançar.

Em outras palavras, tem que haver de alguma forma uma troca. Um assunto em comum que te liga com esta outra pessoa, que cria um laço, que te leva a telefonar para ela, querer vê-la, encontrá-la.

Se não houver isso, não há amizade. Amizade é igual a uma planta. Se não regar, ela morre. Na pressa do dia a dia, na corrida para ganhar dinheiro, no afã de olhar o celular a cada meio segundo para ver notícias, a coisa mais fácil é que alguém esqueça de tomar conta dos amigos que reuniu ao logo da vida.

Por que será que acontece?

Um amigo não é como um amor, não requer exclusividade. Não existe uma exigência de que a você precisa vê-lo toda semana, que precisa estar com ele sempre, que você não possa ter outros amigos. Nada disso. Ser amigo é ter liberdade para viver a vida, para contar ao amigo depois.

Pessoalmente, acredito que muita gente compra gato por lebre e desaprende a ser amigo de verdade. Há pessoas, por exemplo, que acham que ser amigo é escolher um vídeo por semana, mandar para um grupo enorme de pessoas pelas redes sociais. Mentira. Outras acreditam que ser amigo é reunir pessoas nas redes sociais, postar de vez em quando o prato de comida que elas estão comendo, das viagens que fizeram, que basta para que chamem todos os seguidores de amigo. Mentira.

Amigo não é um ser coletivo, é individual. Existe uma troca particular para cada amigo. Há amigos que você viaja junto, mas é impossível contar com esse amigo para desabafar; outros amigos você troca impressões sobre livros, mas para fazer uma viagem esse amigo é um chato; há amigos que você encontra de seis e seis meses, mas é como se tivesse visto semana passada. Outros se sumirem uma semana, é muito.

Neste caso, não dá para entrar numa rede social e mandar mensagem para um monte de gente de uma vez achando que é u uma só. É preciso ligar individualmente para cada um, saber o tipo de troca que te liga a cada amigo em particular, saber ouvir e prestar atenção em cada um. Se isto te parece muito trabalho, babau amizade. Será praticamente impossível ser amigo de quem quer que seja.

Amizade é um entrelaçamento de almas. É prestar atenção em como o outro se sente. Para que os dois amigos possam olhar um para o outro e se reconhecerem depois.

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Foto: Gustavo Noronha

Leandro Alves
Muito prazer!

Mineiro, de Belo Horizonte, cronista, formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas.  Comecei a escrever crônicas postadas nas minhas redes sociais, muita gente gostou e eu continuei. Atualmente, cronista do jornal Porta Voz de Venda Nova. O jornal é impresso, mas esporadicamente também é distribuído online.

Participei do livro “Escrevendo com as emoções”, editora Leonella, sob a curadoria da escritora Márcia Denser.  De 2015 até maio de 2023, participei do Estúdio de Criação Literária, nos formatos presencial e online.

Depois de ler “O padeiro”, crônica de Rubem Braga, e “Flerte”, de Carlinhos de Oliveira, decidi que o que mais desejo fazer nada vida é ser cronista.

Acredito que todos nós, sem exceção, todo dia que saímos de casa, queiramos nós ou não, participamos de um grande filme mudo chamado vida e que tem sempre alguém bisbilhotando tudo o que a gente faz e falando da gente pelas costas. Neste caso, alguns são como eu e escrevem crônicas.  Muito prazer!

Curadoria Márcia Denser