O blog do Leandro Alves

As pessoas são todas umas bisbilhoteiras.  Falam dos vizinhos, falam dos amigos pelas costas, espiam a vida dos outros.  O jornaleiro, o dono da padaria, o cobrador do ônibus, o marido da vizinha, o professor do colégio — ninguém escapa deste prazer humano de falar da vida dos outros.  Pode ser falar bem, mas também falar mal. Algumas pessoas são como eu, transformam tudo em crônicas.

Leandro Alves

Conversar já não tem tanto valor

 

 

 

Conversar já não tem tanto valor

Leandro Alves

A era digital trouxe uma solidão mais aguda, dessas que atingem meus amigos, conhecidos, todo mundo que consome livros e filmes, velhos e atuais, toda semana.

Você gosta de ler?

Já parou para pensar em ver filmes e livros e não ter ninguém para conversar sobre eles?

Jogado no sofá, a gente passa o dia todo mergulhado num livro. Às vezes, um fim de semana inteiro, dependendo do livro. Boquiaberto, a gente sente a beleza do livro como se todo mundo que conhece precisasse ler o livro também: o que será que ele ou ela vai achar? Aborrecido, a gente percebe que o amigo ou a amiga deixou passar batido a informação, indiferente, alegando uma eterna falta de tempo: “Olha que nem tive tempo de olhar o Whatsapp. Andei viajando. Descansando do trabalho da semana. Olhei a mensagem, vi que não era nada urgente, acabei deixando pra lá.”

Estes dias me lembrei de dois dos melhores livros que li na vida: “Cartas a um jovem poeta”, de Reiner Maria Rilke, e “Cartas a um jovem escritor “, de Mário de Andrade e Fernando Sabino. A mesma premissa de ambos: uma troca de cartas entre um escritor iniciante e um autor veterano. Quero falar algo sobre os novos tempos, o fervor intelectual e a paixão pela literatura naquela troca de cartas é impossível de se reproduzir nas mensagens que trocamos hoje por Whatsapp. A cada manhã, a gente recebe uma enxurradas de reels do TikTok, matérias com notícias de crimes, áudios longos de desabafos; mas é só a gente compartilhar um poema, uma dica de filme, um documentário que o outro finge que sequer nos conhece. A atitude, por si só, já mostra uma triste realidade dos nossos tempos.

Quero compartilhar algo, dá uma certa inveja das cartas trocadas entre os escritores daquela época, escritores como Clarice Lispector, Fernando Sabino, Dalton Trevisan e Rubem Braga. Gostaria de ter conversas como as cartas que Clarice Lispector escrevia falando de Catherine Mansfield e Guimarães Rosa.

Outro dia um amigo me mandou um vídeo sobre como conversar antes custava caro e como tinha tanto valor. Reencontrar um amigo por acaso na rua, receber uma carta de um antigo professor, atender um telefonema de alguém e ficar horas conversando, falar no telefone por horas com as pernas esticadas no sofá, lamentar não poder falar com um amigo distante em outro estado. Depois da proximidade excessiva, conversar já não tem tanto valor. Certa vez, um amigo me confessou francamente: “As únicas pessoas que não estão silenciadas no meu Whatsapp são minha ex-mulher, minha patroa e meus filhos”. Conversar não é mais motivo de alegria.

E, diante desta triste descoberta, o consolo é reler as cartas antigas que escreveram Clarice Lispector, Pedro Nava, Rilke, Caio Fernando Abreu, Simone de Beauvoir. Que tal um pouco de imaginação? Me sentar no banco da praça e ser um pouco amigo de Paulo Mendes Campos, Hilda Hilst, Jorge Amado e tanta gente boa.

Pois é, um livro ainda pode ser nosso melhor amigo.

Graças a Deus.

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Foto: Gustavo Noronha

Leandro Alves
Muito prazer!

Mineiro, de Belo Horizonte, cronista, formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas.  Comecei a escrever crônicas postadas nas minhas redes sociais, muita gente gostou e eu continuei. Atualmente, cronista do jornal Porta Voz de Venda Nova. O jornal é impresso, mas esporadicamente também é distribuído online.

Participei do livro “Escrevendo com as emoções”, editora Leonella, sob a curadoria da escritora Márcia Denser.  De 2015 até maio de 2023, participei do Estúdio de Criação Literária, nos formatos presencial e online.

Depois de ler “O padeiro”, crônica de Rubem Braga, e “Flerte”, de Carlinhos de Oliveira, decidi que o que mais desejo fazer nada vida é ser cronista.

Acredito que todos nós, sem exceção, todo dia que saímos de casa, queiramos nós ou não, participamos de um grande filme mudo chamado vida e que tem sempre alguém bisbilhotando tudo o que a gente faz e falando da gente pelas costas. Neste caso, alguns são como eu e escrevem crônicas.  Muito prazer!

Curadoria Márcia Denser