
Leandro Alves
Talvez o leitor não sinta o mesmo que eu, mas o fato é que a vida me lembra um daqueles filmes mudos em preto e branco antigos. Homens e mulheres andam por aí como se fossem invisíveis, como se ninguém reparasse neles, como se a passagem deles pelas ruas fosse desinteressante. As pessoas reparam sim. Como reparam! Às vezes, sem saber, a gente vive nas ruas situações hilárias, comoventes, tristes. A gente simplesmente não repara quando tem alguém olhando pra nossa mesa, pela janela do ônibus, na fila do cinema — a gente não vê quando alguém olha pra gente.
Vejo um homem negro, calmo, sentado no banco do ônibus com o olhar de quem olha pela janela da cidade e não vê nada e ninguém. Um olhar calmo, preguiçoso, triste. Eu estou alguns bancos atrás do dele no mesmo ônibus. Não sei o que me leva a olhar tanto para ele. Opa, uma jovem loira olha para ele. Pelo menos uns vinte anos mais jovem. O olhar é de desejo, raro, decidido. Ele a percebe e gosta dela, mas não encontra energia para conversar. Descem do ônibus. Talvez nunca mais se vejam de novo.
Estou dias depois numa lanchonete, comendo pastéis de camarão e carne seca com um amigo, com uma Coca-Cola bem gelada. Olho para a avenida. Um carro e uma moto batem. Confusão. O motoqueiro desce, chama o motorista do carro para a briga, (cena clichê), o rapaz do carro aceita. Epa, o motorista do carro é um personal trainer capaz de partir o motoqueiro ao meio. O motoqueiro foge.
Será a palavra da ofensa mais urgente do que a do amor? Um homem chama no braço um desconhecido, mas não acha forças para conversar com uma mulher bonita que gostou dele. Bem que eu queria que o casal do ônibus estivesse namorando.
Foto que ilustra a crônica: filme “Samba”, com Omar sy e Carlotte Gainsbourg, que vi no cinema e simplesmente adoro.