
Uma crônica de Leandro Alves
Por telefone
Na última semana, dois amigos me telefonaram, um moço e uma moça.
Ele, queria me falar de umas cantoras de MPB que está ouvindo atualmente; ela, divertidíssima, queria que eu a ajudasse a falar mal de uma moça do nosso grupo de forró, uma mulher que a gente detesta em comum.
Qualquer que fosse o motivo, percebi como a voz do outro se conecta com a gente: a voz de um amigo nos conta se ele está triste, alegre, eufórico, falando a verdade, mentindo.
A mensagem, não.
A palavra pelo Whatsapp ou e-mail é fria, distante, indecifrável.
Por Whatsapp, acontece algo também terrível: o outro conversa com você, a ex-namorada, o gerente do banco, o mecânico. Se algum perrengue surgir no meio da conversa, ele sai sem se despedir para retomar a conversa na quinta-feira da outra semana. Conversar ao telefone não: na linha telefônica é só você e o amigo, a conversa não vai se misturar com três, quatro vozes. Se acontecer, é perigoso um dos amigos ficar à beira de um ataque de nervos. Maluco, para dizer o mínimo.
Confesso que um lado meu, bem moderno, perguntava se não seria melhor desligar, perguntar o que meus amigos queriam; o outro lado, do homem das antigas, redescobria o prazer de reconhecer como um amigo está apenas pelo tom de voz.
O tom de voz nos torna únicos, inconfundíveis, próximos, humanos.
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